16.8.06

"TV NA TABA"


Os acontecimentos referentes à noite de abertura da TV Tupi de São Paulo – a primeira do Brasil e da América Latina – estão embaralhados nas mentes e nos escritos de diversos personagens participantes deste evento histórico. Até mesmo as palavras de abertura pronunciadas, supostamente, pela então iniciante atriz Iara Lins são controversas. Segundo alguns, a atriz teria pronunciado, quando da abertura da transmissão de inauguração da TV Tupi de São Paulo: “No ar, a PRF-3 TV Difusora”. Outras fontes informam que, na verdade, as palavras dando início à grande aventura da televisão em terras tupiniquins seriam: “Senhoras e senhores telespectadores. A PRF-3 TV Emissora Associada de São Paulo orgulhosamente apresenta neste momento o primeiro programa de televisão da América Latina”. E mais outra fonte informa que Iara Lins teria dito: “Está no ar a PRF-3 TV Tupi de São Paulo, a primeira estação de televisão da América Latina.” . Para complicar ainda mais as coisa, a frase dita teria sido "Está no ar a TV no Brasil", dita, segundo outras fontes, por uma garotinha de 5 anos chamada Sônia Maria Dorce, vestida como uma indiazinha.
Quais foram as palavras exatas e quem as disse, não importa. O importante é que, no dia 18 de setembro de 1950, às 21 horas (historiadores da história da TV dizem que as transmissões aconteceram das 18 às 23h), é inaugurada a primeira emissora brasileira e sul-americana de televisão, o que, passados alguns anos, causaria mudanças profundas na vida e nos hábitos da população brasileira.

Inauguração da TV Tupi.





 










Ivon Cury e Hebe camargo na TV Tupi em 1950.



 











A aventura, porém, começara um tempo antes. Em 1949, Assis Chateaubriand, então o dono do maior império de comunicação do Brasil, pagava à RCA Victor 500 mil dólares referentes à primeira prestação da compra das trinta toneladas de equipamentos, necessárias à montagem do projeto televisivo. O montante da compra alcançava os 5 milhões de dólares. Como sempre acontecia, Chatô já conseguira vários contratos com diversos grandes grupos empresariais - Moinho Santista, Antarctica, Seguradora Sul-Americana e outros – para financiar seu empreendimento. Tais grupos adiantaram parte do dinheiro para a consecução do projeto, em troca de um ano de publicidade no futuro veículo de comunicação.


Conhecedor das coisas, Chatô escolhe São Paulo para ser a cidade onde se instalaria a estação pioneira. E logo estariam indo para os Estados Unidos dois técnicos brasileiros, Mário Alderighi e Jorge Edo, para aprenderem os mecanismos de funcionamento dos sofisticados maquinários. Outros técnicos são treinados aqui mesmo, na marra, de maneira quase artesanal. Enquanto isso, Chatô ia montando sua equipe de confiança para ficar à frente do emergente empreendimento. Assim, para diretor artístico, ele traz o baiano Demerval Costa Lima, com cargo igual nas rádios Tupi e Difusora, ambas de São Paulo.

Em meados do ano, os equipamentos já estão todos instalados e oficialmente prontos para entrar em operação. Porém, para maior segurança e tranqüilidade para todos, Chatô exige que se realize um teste-piloto em circuito fechado, mais precisamente, a transmissão da inauguração oficial do Museu de Arte Moderna de São Paulo e do edifício-sede dos Diários Associados. Dois monitores são então instalados, um no saguão do museu , outro, no cruzamento das ruas Sete de Setembro com Bráulio Gomes. Autoridades de todas as matizes e graduações, assim como artistas e intelectuais, são convidados a participarem de tão inusitada experiência. Por lá podiam ser vistos o presidente Dutra, o milionário norte-americano, David Rockefeller e dezenas de políticos e empresários. Muitos se sentam no chão.

Depois das louvações, o começo do sonho. A cobaia seria um ex-ator de Hollywood, agora frade, chamado José Mojica, fazendo grande sucesso no mundo inteiro cantando músicas mexicanas, e que se encontrava no Brasil em excursão. Apresentado por Walter Foster e Homero Silva, Mojica não se fez de rogado: desfila um rosário de m elodias mexicanas, especialmente seu sucesso atual, o bolero Besame. A transmissão durara apenas 30 minutos, as imagens não ultrapassando o saguão dos Diários Associados (Rua 7 de Abril) onde foram instalados alguns aparelhos), tempo bastante para animar os técnicos, mas não para diminuir a tensão existente entre eles, relacionada com o verdadeiro dia de estréia. De qualquer forma, o teste foi aprovado e a TV Tupi de São Paulo estava pronta para entrar no ar.

Jose Mojica interpretando Quando me Vaya.




 










  

Renato Murce tem outra versão, porém; segundo ele, a Rádio Nacional foi a pioneira em transmissões televisivas; textualmente, ele disse:
"(...) Estávamos nos preparando (domingo à noite) para a transmissão dos nossos programas. Vimos o auditório e o respectivo palco serem invadidos por uma porção de máquinas, cabos, refletores etc. Pensamos, primeiro, que fosse uma filmagem da Atlântida, mas não. Uma empresa francesa, cujo nome ignoro, tentava vender uma estação transmissora de TV à Rádio Nacional. Aquele dia, Vitor Costa marcara para o devido teste.

(...)

A tal empresa providenciara tudo: instalara dois aparelhos na cidade: um na antiga casa 'A Exposição', na Avenida Rio Branco, esquina de São José; outro, numa ótica que ficava em frente.

(...)

O primeiro programa a ser televisionado foi o 'Nada além de dois minutos', do Paulo Roberto. Seguiu-se 'Papel Carbono'. Mas a coisa não 'colou'. Os que foram assistir não viram quase nada, as imagens muito brancas, tudo muito confuso. Assim, a Radio Nacional não fez o negócio. Já parecia até uma profecia: jamais teríamos esse moderníssimo meio de comunicação."










Cassiano Gabus Mendes, assistente de Costa Lima e então com cerca de 20 anos, se transforma em um dos heróis do dia da verdadeira estréia. Filho do lendário Otávio Gabus Mendes, roteirista do célebre Ganga Bruta de Humberto Mauro, Cassiano era um “geninho”, sabendo de tudo um pouco. É ele quem realiza os ensaios dos primeiros programas a serem colocados no ar, tudo feito copiando as experiências do rádio, de onde vinha a maioria dos envolvidos no experimento, uma vez que não havia câmeras quando desses ensaios.
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Mas, nem tudo sai a contento; os problemas fora da hora definitivamente abalam os nervos do pessoal envolvido, principalmente quando um a das três câmeras RCA Victor pifa, o que, em tese, impediria a transmissão ao vivo do cardápio escolhido. O engenheiro americano Walter Hobermuller, um dos encarregados do treinamento de Mário Alderighi e Jorge Edo, e que se encontrava no Brasil para acompanhar e supervisionar a inauguração, vendo aquela bagunça, e gritando ser impossível trabalhar com somente duas câmeras, se retira irritado para seu hotel. Costa Lima, Alderighi, Jorge Edo e Cassiano se vêem com a batata quente nas mãos. Mas, a programação tem que ir ao ar de qualquer maneira. A tragédia é iminente.

















7 horas da noite: o Jockey Club está apinhado de socialites e autoridades. Para o povão, são instalados 22 receptores nas vitrines de algumas lojas revendedoras do aparelho, outros, em alguns bares e no saguão da sede dos Diários Associados, lotado de gente à frente do receptor, uns a fim de não perder nada do que poderia acontecer, outros, para conhecer a tão comentada máquina, segundo alguns a mais revolucionária das descobertas da ciência em muitos anos e que, mais tarde, seria alcunhada por Sérgio Porto de “máquina de fazer doidos”.

A informação de que haveria problemas com a transmissão (acontecida de um estúdio montado na Avenida Alfonso Bovero, uma antena de retransmissão sendo instalada no prédio Altino Arantes, centro de São Paulo) corre de boca em boca. Muitos já sabem que o técnico americano tinha cancelado a transmissão, sabendo de antemão ser impossível o funcionamento da programação sem uma das câmeras.

Obviamente, muitos torcem mesmo pelo pior, conhecendo, como conheciam, Assis Chateaubriand. No entanto, como também acontecia durante as filmagens das chanchadas da Atlântida, Costa Lima e Cassiano resolvem improvisar e, mesmo correndo o risco de tudo dar errado, colocam, mesmo com problemas e com atraso, a emissora em funcionamento, ou seja, a programação teve que sair na marra. O certo é que, às 21 horas do dia 18 de setembro de 1950, a PRF-3 entra definitivamente no ar. O nome do primeiro programa a ser transmitido recebe o sugestivo nome de “TV na Taba.”

Muito mais tarde, Cassiano Gabus Mendes descreve a programação: entrevistas, números musicais, balé, humorismo, discussões futebolísticas etc. Quer dizer, na televisão, nada se cria, tudo se copia, como diria o sábio Chacrinha.

Apresentado por Homero Silva, começa o programa propriamente dito. Logo após a abertura da programação por Iara Lins, entra a poetisa Rosalina Coelho Lisboa Larragolti declamando poesias e oferecendo a emissora a todos os paulistanos. E assim, as atrações vão sendo apresentadas uma a uma: Lia Marques, de índia tipo… não se sabe o quê (norte-americana?), apresenta um balé estilizado. Mazaropi, em um número cômico, já incorporando o futuro jeca, de tanto
sucesso popular alguns anos depois. Aurélio Campos tecendo comentários sobre o nosso futebol. E logo mais adiante, Lima Duarte, homem de confiança de Chatô, desfiando loas em homenagem às excelências do teatro brasileiro.

Vinhetas da TV Tupi.



Falando em teatro, um acontecimento semi-dramático acontece durante a encenação de Crime e Castigo, de Dostoievski, adaptado para a televisão. Cassiano, o faz tudo do estúdio, conduzia uma carroça em uma cena que contava com o ator Jaime Barcelos. Cassiano conta mais:

"(...) de repente, Jaime deu um berro. Eu sabia que aquilo não estava no script. Jaime, que havia prensado o pé na passagem, fraturando o tornozelo, gritava baixinho para mim: pára, pára logo, eu não agüento mais’. Eu não entendia nada e prosseguia com a carroça.”




Aqui, outra controvérsia: segundo algumas fontes, às 17:00, Homero Silva convida Lolita Rodrigues para cantar o Hino da TV, ou Canção da TV; outras fontes dizem o contrário: que, para encerrar com chave de ouro a programação, foi escolhida nada mais, nada menos do que Hebe Camargo (1929 - 2012), então morena e magrinha, programada para cantar o Hino da Televisão, composto pelo poeta modernista Guilherme de Almeida e Marcelo Tupinambá. Entretanto, um fulminante resfriado não teria permitido que a artista participasse de acontecimento tão importante. Para dar conta do recado, então foi chamada Lolita Rodrigues, linda, com maravilhosos olhos verdes, doida para ter sua chance. Acompanhada pela cantora Vilma Bentivegna, canta de forma emocionada o hino especialmente composto para a ocasião:

“Vingou, como tudo vinga
No teu chão, Piratininga
A cruz que Anchieta plantou:
Pois dir-se-á que ela hoje acena
Por uma altíssima antena
Em que o Cruzeiro poisou.

E te dá, num amuleto
O vermelho, o branco, o preto
Das contas do teu colar.

E te mostra num espelho
O preto, o branco,o vermelho
Das penas do teu cocar."


Lolita Rodrigues interpretando o Hino da Talevisão no programa Hebe Camargo.




Desde então, Lolita Rodrigues não mais saiu da televisão. Também, dessa forma improvisada, com histórias conflitantes sobre esse dia tão especial, e com o famoso jeitinho brasileiro, começou a emocionante aventura da televisão no Brasil.

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